Tecendo memórias
Com agulha e linha, e com a Mãe, a Menina aprendeu ser possível fazer de um tudo: ajustar a barra da calça, pregar botões, remendar furos... costurar peças novas a partir de um simples pedaço de pano. As agulhas eram de variedade infinita; havia para todos os tipos de linha, pontos e desenhos. Uma delas, bem grossa e um pouco enferrujada, a Mãe não usava para costurar, mas para desmanchar os pontos já feitos.

A Menina preferia a praticidade do desmanchador de costura, objeto de duas pontas, uma maior que a outra, presas a um cabo plástico. Uma das pontas, pontiaguda, e a outra, com uma pequena bolinha vermelha no topo. A pontiaguda atravessava o ponto, que era desmanchado pelo vão entre as duas. A bolinha vermelha era muito simpática; não sabia a Menina se, de fato, tinha alguma serventia.

As tesouras também variavam nos tamanhos, formatos e usos. Eram o começo de tudo. A partir delas podia se dar forma a inúmeras possibilidades de criar, recriar e reformar pedaços de roupas já usadas, essas portadoras de tantas reminiscências. Sempre havia uma camiseta, uma saia ou uma calça cujo uso poderia ser prolongado por mais um verão. Se estava furada, precisava de uma bainha ou de uma pensa, a Menina acreditava que na caixa de costura da Mãe encontraria todas as respostas que buscava.
Era tamanha a confiança da Menina na Mãe, que não ousava questionar suas orientações. Assim foi aprendendo um pouco de cada técnica, admirada com a variedade de conhecimentos acumulados pela Mãe, que eram muitos: tricô, crochê, bordado, costura. Mas, contrariada nas suas expectativas, a Menina também deparava com os limites nas habilidades e equipamentos da Mãe. O fato arrebatava a Menina, que era tomada por uma profunda decepção. A Mãe já conhecia da intensidade da Menina e também como a frustração pode se manifestar na infância; não costumava dar muita bola para aqueles arroubos infantis.

A Menina, na profundidade dos seus sentimentos, detestava o fato de suas mãozinhas infantis – que eram daquelas clássicas, que vêm com olhos nas pontas dos dedos – não poderem percorrer livremente a variedade contida na caixa. Sua voracidade infantil queria ver, cheirar, tocar. Que gosto tem a linha? Qual som ela produz quando atravessa o tecido? A linha no buraco da agulha, a agulha no pano, por cima e por baixo, dando forma a peças novas e novas memórias, que cor tinha isso?
A Menina não sabe dizer até hoje os motivos da Mãe para ter uma postura tão rígida em relação à caixa. Era apego ou vaidade? Medo ou excesso de zelo? Ou tudo isso misturado? A Menina nem suspeitava que cada objeto que repousava na caixa também guardava memórias da própria Mãe. Jamais suporia, tão jovem que era, que um objeto poderia despertar memórias distintas para ela e para Mãe. Por que a Mãe insistia em manter o alfineteiro velho e remendado, em vez de trocar pelo novo e moderno que vinha nas revistas de costura que elas compravam juntas na banca de jornal?
Esse e outros questionamentos pueris da Menina nunca foram respondidos. Ela cresceu sem explorar a caixa de costura com todos os seus sentidos e sem construir suas próprias memórias a partir dela. A compreensão da Menina ficou fragmentada e o objeto se perdeu, escondido em algum canto escuro da mente e da alma.
Anos mais tarde, a Menina já não pertencia mais ao mundo da Mãe, e à Mãe já não cabia mais mediar seu acesso ao mundo. A Menina que não era mais menina foi presenteada com uma pequena caixa de costura, preparada com atenção a cada detalhe pela Mãe. Foi, para a Menina, um inesperado reencontro com os alfinetes, as fitas métricas (a Mãe sempre gostou de ser precavida), o desmanchador de costura, o passador de cordão, botões avulsos, um kit com agulhas... Rolos de linha de costura em carreteis de papelão, em diversas cores. Os objetos que viu passar pelas mãos habilidosas da Mãe desde a infância estavam acessíveis.

A Menina, que saía do ninho e ganhava o mundo a partir das próprias pernas, via nos carreteis um lindo arco-íris expandindo os seus horizontes. Hoje, a Mãe deve estar em algum lugar radiante: todos eles passaram a residir numa caixa onde se lia o verso da poeta “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Com costura e poesia andando juntas, a Menina agora podia ir onde quiser.




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