A beleza é uma porta que se abre por dentro

O bordado é livre, mas muitas vezes fico pensando se as técnicas por vezes não nos aprisionam. O ponto perfeito, a tensão ideal do fio, a agulha correta, o melhor tecido, o melhor bastidor. Para quem tem o bordado como um ofício, entram ainda outras questões, relacionadas ao comércio digital: nicho, sub-nicho, funil de conteúdo… cursos e mais cursos. Antigamente, quando saber bordar era parte do desenvolvimento de habilidades das mulheres para serem uma boa esposa e futura mãe, as moças que não executavam um avesso perfeito, por exemplo, eram tidas como desleixadas, pouco esmeradas. Até hoje o avesso é uma discussão polêmica no meio e muitas vezes motivo de pavor de muitas bordadeiras, que se cobram para atingir patamares de perfeição inexistentes. Qualquer semelhança com outros aspectos da condição feminina (o corpo perfeito, a maternidade perfeita, a profissional perfeita) não são mera coincidência.
Tradições grudam no inconsciente coletivo… e ficamos perseguindo um padrão sem nem saber direito a razão. E às vezes a autocobrança é tanta que nos desestimula a percorrer nossa caminhada subjetiva e singular, desistindo de algo que pode nos fazer bem simplesmente porque faz bem, e não porque esperam isso de nós... e que tristeza é isso né?
Mas tradições são construções culturais, que variam no espaço e no tempo. Que acompanham o lugar social dos públicos a elas relacionados. E se o lugar das mulheres de alguma forma mudou, por que os nossos papeis e lugares sociais não podem mudar? Eu vejo o avesso como uma parte da história de um bordado que só poderia ser tecida por mim. O bordado, em ambos os lados revela minha subjetividade e a singularidade da minha obra. E também as minhas ambivalências, que aos poucos eu vou aprendendo a perceber, compreender e acolher. E transformar, quando for esse o meu desejo.
A biografia do Marco Nanini, um ator consagrado e conhecido e reconhecido, traz essa reflexão sobre os avessos desde o título - O Avesso do Bordado. A autora percorre no prefácio a sua própria percepção das elocubrações de Nanini sobre o tema. Em certo momento do livro, emerge a tônica da relação entre o bordado e sua trajetória como ator: a tessitura do personagem acontece como num bordado: cores, luz, criação do personagem (tema), a história que vai ser contada no palco (o tecido), e o ator usando o corpo para conduzir a trama (com suas mão movendo a agulha e a linha).
O ator, quando no palco, erra, esquece e com isso improvisa. Assim, será que o avesso pode mesmo ser perfeito? E a frente do bordado? Que aspecto tem? Será que a letra bordada à mão precisa ser perfeitamente retilínea? Será que o desenho não pode ter nenhum repuxo no tecido? O bordado é feito por mãos humanas, não por pinças metálicas controladas por computador. Uma técnica bem executada não é uma técnica perfeita. A letra escrita à mão também tem variações. O desenho muito preenchido pode engolir um pouco do tecido, porque ao longo do bordado o tecido dança um pouco no bastidor. O avesso é o caminho percorrido pelas mãos em busca de construir uma imagem e uma história com agulha e linha. E nada no caminho deve ser desprezado ou menosprezado.
O bordado é uma dança, na qual a cadência entre os passos e a música é diferente de seguir uma coreografia sempre igual (que também tem sua beleza, é fato!). E ainda que você faça bordados pra vender, e tenha um nicho específico, nunca será algo mecânico e repetitivo em todas as encomendas que pegar. Porque você não é a mesma todos os dias, simples assim. Se for isso que você espera de si, a frustração é um caminho sem volta. E se for isso que espera como cliente, é melhor pensar em outro tipo de presente.
A gente só sabe como um bordado vai ficar quando ele fica pronto. Às vezes tem que desmanchar, às vezes tem que adaptar. A criatividade é a mãe da solução.
Eu vira e mexe fico às voltas com essas questões, especialmente quando travo num bordado mais complexo e detalhado. Vem a vontade de desmanchar o bordado inteiro. Certa vez fiquei me segurando nesse ímpeto quase pueril, porque no fundo o problema não era o bordado, mas o meu olhar de autocobrança sobre ele. Acabei desmanchando uma parte 😅, e mesmo assim, somente o fiz quando entendi o que tava me desagradando. No final consegui refazer de um jeito melhor, mas senti que precisava entregar esse bordado para o universo, e deixar ele ser quem ele poderia ser.
Na mesma época desse história, uma bordadeira que já me ensinou muito postou um bordado feito por ela com a frase da foto inicial desse texto. Acho que muita gente conhece a canção, de autoria de Jorge Mautner e interpretada lindamente pela nossa saudosa Gal. E eu, travada no tal bordado, senti que precisava me dar um tempo e bordar justo essa frase, de uma forma totalmente intuitiva, pra libertar a beleza que é usar as mãos pra contar histórias. E acabei dando vazão a todos esses pensamentos, que precisavam encontrar um caminho para percorrer em linha no tecido. E em música.
No final o que ficou pra mim foi que: quanto mais nos aprofundamos na técnica, mais perseguimos a excelência. E tá tudo bem com isso. Sempre existe espaço pra fazer melhor. Mas um bordado não nasce para ser perfeito. Ele nasce para despertar emoções, para dar cor a memórias importantes. Nasce para ser admirado. E a admiração nasce de um conjunto de sentimentos que são despertados não pela perfeição, mas pela emoção imperfeita que ele expressa.
Depois disso, eu bordei essa música muitas e muitas vezes, porque ela tocou muitos corações. Se tornou um clássico em meu ateliê e um símbolo da minha libertação como bordadeira, deixando fluir minha criatividade, que é única, porque só pode vir de mim mesma. E quando comecei a dar oficinas de bordado, foi inevitável levantar a bandeira do nosso lugar na sociedade. Nós, mulheres, temos sido aprisionadas em padrões ao longo de séculos na história e temos lutado também pela nossa autonomia e autodeterminação. Acredito no bordado como uma potência nesse caminho, porque ele fortalece nossa autoconfiança (quando nos livramos da autocobrança). Porque nos incentiva a estar em grupo, e juntas somos mais fortes. E nos ajuda a enxergar os padrões que nos aprisionam e a nos movimentarmos rumo à nossa própria liberdade. A beleza do bordado é abrir as portas para sermos livre. E a beleza é uma porta que se abre por dentro.




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