Sua Santidade, o Algoritmo?
Depois que o bordado passou a ser mais do que um hobby, minha relação com o Instagram mudou. Passou do entretenimento e do compartilhamento de histórias pessoais para um espaço de divulgação e reflexão nesse caminhar com o bordado.

E, nessas, também mudei a relação com a “produção de conteúdo", claro. Fiz cursos e passei a seguir (e deixar de seguir) contas que se especializaram em falar das famigeradas “mudanças no algoritmo”. Reclamações sobre a força do algoritmo, que ora entrega mais, ora menos, prejudicando sobretudo pequenos negócios - artesanais - que têm no Instagram sua principal, senão a única, forma de divulgação e venda.
A força dos algoritmos, porém, há muito tempo se impõe na navegação na internet. É só pensar nas “escolhas para você” do Netflix, na “daily mix”, do Spotify, e o YouTube, que cria uma sequência de vídeos para você não desgrudar da página nunca mais. O filme “O Dilema das Redes” revelou que até o tempo que você leva para rolar a tela é monitorado. E na lógica do algoritmo, essa métrica é importante na hora de "entregar" ou não os posts.
Como viabilizar pequenos negócios feitos à mão num espaço no qual a tônica é o consumo imediato e pouco reflexivo, em que são computadores super avançados que “selecionam” o que cada usuário vai ver? Como reconstituir, na rede social, todo o processo - e o tempo envolvido - na produção de um bordado?
Dizem os especialistas que é preciso estar “presente nas redes” se quiser ser visto e lembrado. Só que nesse caminho muitas tombam com crises de ansiedade e burnout, porque ser visto e ser lembrado também é sobre se sentir aceito. E precisa de uma autoestima muito em dia para lidar com o descontrole dos processos que envolvem Sua Santidade, o Algoritmo.

Um negócio baseado no fazer manual vive da singularidade da relação com cada bordado. Produzir um bordado é se entregar corporal e emocionalmente. E isso não é compatível com uma presença digital nesses termos tão taxativos. E nem deveria ser, penso eu.
Quando a pandemia sacudiu o mundo, muita gente foi se refugiar nos trabalhos manuais para lidar com os efeitos emocionais do isolamento e do distanciamento social. Foi necessário reaprender a estar em casa e o elo entre o virtual e o real, entre o digital e o analógico funcionou muito bem para atravessar a tormenta.
Se você queria aprender a bordar, ou a encadernar, ou a fotografar, precisava encontrar um curso online e fornecedores na internet. A economia movimentada em torno disso permitiu a continuação, o fortalecimento e o nascimento de muitos pequenos negócios. Era possível empreender e monetizar a partir desse fazer artesanal. - O mundo realmente estaria mudando? - se perguntaram muitos de nós.
Não sei vocês, mas eu nunca me iludi quanto a isso. O capitalismo global estava apenas buscando mais uma maneira de sobreviver perante uma das piores crises da sua história, que atingiu em cheio o consumo. Se as pessoas não saiam mais de casa para consumir, era necessário encontrar meios para que continuassem consumindo, a um clique de casa.
Só que aí a vacina chegou, os casos e mortes diminuíram e nos permitiram voltar a sair, a celebrar e até a aglomerar. Quem consumia conteúdo virtual foi consumir outras coisas fora de casa (até os mesmos trabalhos manuais). E quem produzia conteúdo está reclamando que o Instagram “não entrega mais nada”. Que o algoritmo mudou. Será que foi o Instagram mesmo que mudou?
Sim, há indícios concretos de mudança, na luta pela audiência entre as diversas opções de redes sociais. Mas me parece que o Instagram sempre foi e continua sendo esse lugar que exige uma presença digital tirana e desumana. Porque se não existirem pessoas para socializar, qual o sentido de uma rede social? Creio que isso era menos perceptível quando não havia mais nada para fazer além de produzir e consumir conteúdo virtual.

Os algoritmos servem para orientar a disputa de atenção e de tempo de anunciantes, acho que praticamente todo mundo já se deu conta disso. It’s only business. Ainda assim não me parece factível perseguir a todo custo a “atenção” dos consumidores de conteúdo na lógica hegemônica. Fico muito incomodada com perfis que vendem soluções mágicas nessa linha. E fico mais incomodada ainda quando vejo artesãs e artesãos se culpando (e se desculpando) pela falta de “presença” na rede.
O fazer manual é muito maior que o Instagram, acho que em síntese é o que eu gostaria de dizer. Ele acompanha a evolução humana desde a invenção da primeira agulha, feita de osso, que permitiu costurar peles de animais para proteger nossos corpos do frio. E tem atravessado os séculos e se reinventado perante as mudanças culturais e tecnológicas.
Agora, mais recentemente, o "feito à mão" também ganhou espaço relevante nas reflexões sobre um futuro mais sustentável e autônomo. Na Idade Média também era um símbolo de autonomia deter conhecimentos relacionados ao tecer, ao cerzir, ao cozinhar, ao uso de plantas medicinais. Isso permitia que as mulheres dominassem uma parte importante da economia doméstica, viabilizando as próprias condições de existência da família. Se as atividades manuais sempre estiveram associadas ao lugar do feminino na divisão do trabalho, esse lugar também conferiu a nós, mulheres, um status de autonomia. Silvia Federici, em O Calibã e a Bruxa, revela que, para confiscar de nós esse lugar autônomo, a narrativa de desvalorização do fazer manual - e consequentemente, dos saberes das mulheres - foi se constituindo e se impregnando em nossa sociedade.
Diante desse histórico, me parece um contrassenso que a gente submeta nossas mãos tão habilidosas a condições tão autoritárias para divulgar digitalmente o que sabemos fazer tão bem. Isso me lembra um pouco a história do avesso perfeito. As mais experientes no bordado vão confirmar que em tempos mais antigos, a mulher que não bordava um avesso que se parecesse com o lado direito do tecido era tida como desleixada e inapta para cumprir seu papel de esposa. Será que em nome de Sua Santidade, o Algoritmo, é para esse lugar mesmo que queremos voltar na nossa relação com as artes têxteis?
Porque por mais digital que seja a sociedade, alguns processos seguirão sendo manuais e precisam ser valorizados e reafirmados como tais. É no um a um mesmo. Assim como um bebê leva cerca de 9 meses para ficar pronto para o mundo fora do útero, e mais um tempo para desenvolver habilidades como andar, falar e controlar seus esfíncteres, um bordado também tem seu tempo. E a bordadeira nem sempre está disposta a manusear linha, agulha e celular ao mesmo tempo, em nome de um post potencialmente viralizante no Instagram. Às vezes a gente só quer bordar e esquecer um pouco do tempo lá fora.

A riqueza do fazer manual, para mim, está na experiência única entre quem encomenda um bordado e quem produz um bordado. Ou entre quem busca aprender bordado com uma bordadeira disposta a ensinar.
Sigo apostando nessa conexão, real, que produz coisas reais e em (um) tempo real. Sigo acreditando que precisamos olhar com mais seriedade para a natureza analógica dos processos, respeitar e valorizar os tempos individuais das pessoas. Porque é somente nessas condições que o potencial realmente se revela, e desabrocha a nossa capacidade de produzir coisas extraordinárias, que vão muito além dos 90 segundos de Reels.




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